«Lia todos os livros que editava, o que não acontece com todos os editores.» - A homenagem a Rogério de Moura

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A vida de Rogério de Moura ficou marcada pela sua entrega à actividade editorial. Ao longo de mais de cinco décadas deu o seu contributo para o enriquecimento cultural do país - quantas vezes na ousadia do desafio a poderes instituídos -, numa atitude de envolvimento apaixonado com as obras que produzia, desde a sua criação à impressão e divulgação.

«Rogério de Moura lia todos os livros que editava, o que não acontece com todos os editores.», partilhou o amigo José Augusto-França na homenagem realizada, ontem, na 79ª Feira do Livro de Lisboa.

Rui Beja, presidente da APEL, dedicou a Nova Feira do Livro ao antigo editor da Livros Horizonte (LH).

 

Publicar "os outros livros"

Não sendo a única editora a que esteve ligado, a LH publicou mais de 1550 obras. Foi com a chancela LH que inúmeras obras de indiscutível qualidade viram a luz do dia. «Rogério de Moura publicou sempre os outros livros. Para bem dos seus autores e para bem dos seus leitores.», salientou Augusto-França.

Rogério de Moura colocou a persistência que o caracterizava ao serviço da edição, tendo publicado obras fundamentais em áreas tão diversas como a Pedagogia, a História, a História da Arte, a Economia, as Ciências Sociais e a Literatura Infantil.

A filha Cláudia de Moura também esteve presente na cerimónia e relembrou alguns episódios partilhados com Aquilino Ribeiro, Agostinho da Silva, José Gomes Ferreira, Matilde Rosa Araújo e os desabafos de José Saramago.

«"Viste a crítica do Diário de Lisboa? Que mal terei eu feito ao rapaz é que não sei. Mas grande incómodo causa o meu livro para assim ser tratado... Enfim, daqui por vinte anos se saberá." in Carta de José Saramago a Rogério de Moura, Abril de 1970».

 

«Dizia sempre as coisas importantes em duplicado»

São muitos os testemunhos dos autores com quem trabalhou que falam da forma como se envolvia com a feitura das obras, discutindo os originais, sugerindo alterações, reflectindo sobre cada detalhe.

«Sou capaz de falar sobre um livro o tempo que for necessário, mas não consigo é fazer o acto de venda, têm de ser os outros.» in artigo publicado no Diário de Notícias em 2007.

Figura ímpar da edição portuguesa, desde sempre deu o seu contributo, activo e esclarecido, para o fortalecimento do movimento associativo e a cooperação inter-pares, nomeadamente como primeiro Presidente da APEL.

«Cumprimentava alguns conhecidos de meio em meio minuto. Talvez porque tinha sempre tantos projectos a decorrer. Curiosamente, cumpria-os.», recordou a filha.

Rogério de Moura foi condecorado pelo governo Francês, no ano 2000, com a medalha de Ouro da Cidade de Paris, devido ao importante contributo na divulgação de autores franceses.Em 2003, foi distinguido pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, com a condecoração de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

«Vivo, ou já não vivo, o nome e a educação de Rogério de Moura continua a estar presente nos livros que saem de sua casa com a sua assinatura.», lembrou  Augusto-França a respeito das obras que continuam a ser editadas pela Livros Horizonte.

«"Lê, lê. É bom, é bom." Dizia sempre as coisas importantes em duplicado», recordou a filha do editor homenageado.

Deixe aqui os seus comentários ao fundador da editora Livros Horizonte, que faleceu, em Lisboa, no dia 23 de Novembro de 2008.