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"A poesia é a palavra essencial no tempo"- Entrevista a Carlos Nejar

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«Os poemas vivem dentro do livro. Embora vivam sozinhos. Mas eles estão tão acomodados à comunidade do livro que eles se ressentem. Eu não posso culpá-los.»

Carlos Nejar esteve à conversa com a Feira do Livro de Lisboa. Romancista ou poeta? Prefere dizer que trabalha a linguagem. Os preconceitos da crítica em relação à prosa poética, a mistura dos géneros literários, os poetas que escrevem romances e os romancistas que escrevem poemas, a razão de ser escritor, o sentido das antologias, as influências de Dante, as relações entre poetas e editores ...Conheça o autor de "Pequena Enciclopédia da Noite".

Tem 70 anos e ocupa a cadeira nº 4 da Academia Brasileira de Letras. No Brasil é conhecido como "o poeta do pampa brasileiro", por cá, Jacinto Prado Coelho prefere tratá-lo como "o poeta da condição humana". António Ramos Rosa prefaciou uma das suas obras, António Osório dedica-lhe novas palavras para estes 50 melhores poemas de Carlos Nejar editados pela Quasi Edições.

Ouça a entrevista,  que não deu pelo tempo passar até vir a ciência.

 

Entrevista a Silviano Santiago: O perfil de Capitu

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«... condenai o ódio, a camaradagem e a indiferença - essas três chagas da crítica de hoje; ponde, em lugar deles, a sinceridade, a solicitude e justiça - é só assim que teremos uma grande literatura» (Machado de Assis, Diário do Rio de Janeiro, 8 de Outubro de 1865).

 

Machado de Assis é considerado o grande escritor da literatura brasileira. Se as primeiras obras são marcadamente românticas, após a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas o escritor brasileiro mergulha no realismo, mas traz à tona um estilo próprio revelador de uma linguagem original.
Dom Casmurro
é a obra-prima do romancista e a personagem Capitu continua a ser motivo de análise dado o seu carácter enigmático. O romancista, poeta e ensaísta brasileiro Silviano Santigao esteve na Feira do Livro de Lisboa para falar do perfil de Capitu. A descrição dos comportamentos femininos, a narração na primeira pessoa, o preconceito da crítica portuguesa em relação ao homo-erostismo, as semelhanças com O Primo Basílio e Madame Bovary e as várias análises que continuam a ser feitas à obra de Machado de Assis foram algumas das questões abordadas no debate promovido no Parque Eduardo VI.
No final, falámos com  Silviano Santiago para compreender melhor a obra de Assis.

Nesta conferência disse que uma das grandes originalidades de Machado de Assis era o facto de ele ter sido narrador na primeira pessoa. O que é que o fascina mais na narrativa de Machado de Assis?

Silviano Santiago - Neste caso particular, Dom Casmurro é uma narrativa em primeira pessoa. E é uma narrativa em primeira pessoa que deve ser contrastada com grandes romances do século XIX que apresentam semelhanças com esta obra. Esses dois romances do século XIX que me estou referindo são o francês Madame  Bovary e o português O Primo Basílio. Nestes dois romances nós sabemos que a mulher é adúltera porque a narrativa é uma narrativa em terceira pessoa. Além do mais, o romancista tece detalhes picantes da sexualidade das mulheres. O que é fascinante no romance de Machado de Assis, que vem à posteriori, é que é uma narrativa de primeira pessoa e, ao mesmo tempo, muito discreta em relação ao comportamento da mulher. Mas se é discreta em relação ao comportamento da mulher é, no entanto, maliciosíssima em relação à possibilidade de ela ser adúltera. A grande questão de Machado de Assis, e deste romance em particular, durante muitos anos, foi exactamente o enigma de Capitu.

Para além desse enigma também foi abordada a presença de um certo homo-erotismo em Dom Casmurro. Disse que a crítica literária portuguesa é um pouco conservadora nesse sentido. Pode-nos explicar melhor a resistência que notou por parte da crítica literária portuguesa, e não só, relativamente a esta abordagem?

Silviano Santiago - O problema é o seguinte...Isso foi uma pequena maldade. Você sabe que às vezes a gente faz pequenas maldades na vida. (Risos). A crítica europeia (não é só a portuguesa, é a europeia, em geral) tende a ser um tanto conservadora em relação aos grandes movimentos de comportamento que houve no mundo a partir de 1968: os movimentos de liberação da mulher, liberação da sexualidade e também não se deve esquecer as questões étnicas. Estas questões estão muito presentes naquilo que a gente chama Estudos Culturais. Os Estudos Culturais tratam, em particular, de determinadas obras que têm um teor nitidamente gay ou lésbico, ou escrita por minorias étnicas, ou com interesse pela mulher ou então que estão fazendo uma releitura de obras do passado que aparentemente nada tinham a ver com essas questões, mas  muito têm a ver. Porque estas questões não são questões novas, são questões que existiram desde sempre. Então, Machado de Assis, de certa maneira, quando é abordado pela actualíssima crítica norte-americana e brasileira, os críticos estão percebendo traços homo-eróticos bastante nítidos. Um dos exemplos que eu costumo dar é um conto chamado Causa Secreta. Inclusive existe um filme do Sérgio Bianchi que se chama A Causa Secreta. Sérgio Bianchi é um cineasta brasileiro bastante conhecido. Um pouco underground. É claro, teria que ser! (Risos). É um pouco undergound mas muito forte, e ele tem esse filme que é muito bonito. O conto é extraordinário e eu recomendaria a todos aqueles que tivessem interessados numa nova leitura de Machado de Assis. Machado de Assis, como pode imaginar, existe uma biblioteca sobre ele. Inclusive um dos melhores estudiosos de Machado de Assis é um português. O professor Abel Baptista tem já três livros sobre Machado de Assis e é um leitor extraordinário.

Durante a conferência referiu que para além Abel Baptista havia mais dois grandes estudiosos da obra de Machado de Assis.

Silviano Santiago - Um deles é um brasileiro, Roberto Schwartz, que tem feito uma análise marxista de Machado de Assis, portanto você vê também que ele [Machado de Assis] não entra nessas questões. E um segundo é um rapaz, um especialista de Liverpool, que tem feito novas traduções de Machado de Assis para inglês. As primeiras traduções de Machado de Assis, tanto para inglês como para francês, não são de bom nível. Agora é que se estão fazendo traduções de melhor nível, até porque são feitas por pessoas que conhecem profundamente não só o português de Machado de Assis (um português muito especial com toques à la portugaise, pois ele era casado com Carolina, uma portuguesa) e ao mesmo tempo neoclássico. Este estilo era difícil de ser passado para as línguas estrangeiras e Jonh Gledson , o professor de Liverpool, está a agora a traduzir Machado de Assis.

É possível enquadrar Machado de Assis numa corrente literária? Ou ele é muito eclético a esse nível e tem uma originalidade muito específica?

Silviano Santiago - É isso que é fascinante em Machado de Assis. Apesar de morar numa província (o Brasil naquela época era uma província, inclusive uma província escravocrata e ainda com uma literatura semelhante à literatura africana de agora, que é uma literatura muito preocupada com a identidade nacional, com os valores, com os heróis nacionais, etc.) é fascinante como Machado de Assis, no meio daquele ambiente de cedência escrava e tendo as maiores dificuldades para estudo, teve uma abertura extraordinária para uma visão cosmopolita de literatura que fugia ao ramorrão realismo/naturalismo. Isso é que é o mais fascinante. Ele fugia ao ramorrão do realismo/naturalismo buscando  inspiração no romance inglês do século XVIII. Em particular Laurence Stern, que é um dos grandes, e Shakespeare que também é outro grande autor que ele lia com grande constância. Ele opera uma espécie de deslocamento retórico que o torna extremamente original. Possivelmente só pode ser aproximado de Edgar Alan Poe. Os outros estavam interessados em fazer aquele ramorrão da escola literária em evidência naquele momento, que era, no caso, o realismo/naturalismo.

Que conselhos é que deixava para quem se quiser aventurar a ler a obra de Machado de Assis? Que livros aconselha em primeiro lugar?

Silviano Santiago - Eu acho que podem começar por um dos livros mais fascinantes dele que, não por coincidência, é o primeiro da sua fase madura: Memórias Póstumas de Brás Cubas. É a sua bíblia estética. Se analisarem com cuidado terão uma belíssima introdução a Machado de Assis. Em seguida Dom Casmurro (que é uma obra extraordinária), Quincas Borba e os contos. Detenham-se nos contos. Eu mencionei anteriormente Poe... Eu acho que no século XIX , no continente americano, existem dois grandes contistas: Machado de Assis e Edgar Allan Poe.

 

 

«A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar pago-te com um piparote, e adeus.» (Machado de Assis. Trecho do livro Memórias póstumas de Brás Cubas).


Foto de Jorge Padeiro/Agência Zero

 

PROGRAMAÇÃO DO BRASIL

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8 de Maio, Sexta-feira
17h- O perfil de Capitu, personagem do romance de D. Casmurro, por Silviano Santiago | Auditório.
21h- Os Nossos Grandes Autores Brasileiros. Participação de Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa, Clara Rowland, da Faculdade de Letras de Lisboa e Roberto Vecchi da Universidade de Bolonha.
Apresentação do mais recente livro de Bernardo Carvalho,  O Filho da Mãe, por Osvaldo M. Silvestre, da Universidade de Coimbra, com a presença do autor | Auditório.

9 de Maio, Sábado
16h30- Lançamento da obra Pequena Enciclopédia da Noite. Editora Quasi. Carlos Nejar | Auditório.
18h30- Doida Não e Não com Manuela Gonzaga. Mulheres Que Dizem Não (Denilsen Motta) | Auditório.
21h- Apresentação de o Mago (biografia de Paulo Coelho). Fernando Morais | Auditório.

10 de Maio, Domingo
15h30- 1808 - A invenção do Brasil, de Laurentino Gomes | Auditório

11 de Maio, Segunda-feira
19h- Debate sobre Literatura Brasileira. Moderação: José Carlos Vasconcelos | Praça Central.

12 de Maio, Terça-Feira
19h- Ficção e Biografia. Cristóvão Tezza | Auditório.

 15 de Maio, Sexta-feira
18h- Políticas Públicas do Livro e da Leitura. Fabiano dos Santos.
Planos Brasileiros de Livro e Leitura. José Castilho e Teresa Calçada| Auditório.

16 de Maio, Sábado
14h30- Literatura sob violência - realidade na ficção brasileira contemporânea. Marcelino Freire | Auditório.

Foto de Pedro Zenkl/Agência Zero

Bernardo Carvalho é um dos maiores escritores brasileiros do nosso tempo porque é um escritor pouco brasileiro

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"Foi um livro que escrevi sem humor e sem ironia. Estava-me lixando para o que pudessem pensar. E isso foi muito bom."

O convite surgiu através do projecto Amores Expressos. 17 escritores foram enviados, durante um mês, para uma cidade. Bernardo Carvalho foi um deles e o destino foi São Petersburgo. O objectivo era escrever uma história de amor. Sem saber falar russo e sem conhecer ninguém, Bernardo Carvalho tentou estabelecer uma rotina para combater o sentimento de desamparo: acordava de manhã, ia escrever para um cibercafé, almoçava, visitava a cidade para se inspirar no romance e, no final da tarde,  ia até ao ginásio. Mas a rotina durou só três dias até ao momento em que foi assaltado entre o quilómetro que separava a casa do cibercafé: "O assalto que tive em São Petersburgo veio mesmo a calhar porque ajudou-me a criar as personagens do livro.", desabafou o autor.

O pânico durou o resto dos dias e foi nesse estado que viu a cidade e que criou a estória. No livro O filho da mãe, São Petersburgo é retratada como uma cidade brutal e preconceituosa onde as personagens se deslocam sem terem um espaço próprio.

"O oficial da reserva aponta para o capuz antes de Andrei descer do carro que pára, duas horas depois, no mesmo ponto de ônibus onde se encontraram. É menos um cuidado com o bem-estar do rapaz do que uma precaução para o próprio segurança do oficial. Não quer que vejam um recruta descendo do seu carro. Não tem mais vontade de tocá-lo. Procura a carteira no bolso interno do paletó e entrega o dinheiro ao rapaz. Antes de largar as notas, no entanto, retém a mão do recruta. E, se a retém, é menos por desejo do que para reforçar a hierarquia e a humilhação. Andrei sente os dedos calejados acariciando o dorso da mão que recebe as notas e se desvencilha, num gesto brusco. Abriu a porta do carro e a mantém entreaberta por alguns segundos antes de descer. Olha para fora, como se corresse o risco de ser pego em flagrante e as carícias daquele homem fossem a prova do seu próprio desejo por outros homens. Já não precisa se esforçar para não imaginar. Está destruído, como a mulher do metrô. Sente o cabelo espicaçado como o dela, embora o mantenha raspado faz quase um ano. Sente os olhos ardentes e os lábios borrados, costurados e esfolados. Veste o capuz. Tem pouco hábito com dólares. Conta o dinheiro antes de descer - ou finge contar; está nervoso, não distingue as notas, e a escuridão tampouco o ajuda. O oficial o observa, calado; hesita em pôr a mão na nuca do recruta e em acariciá-lo de novo, num ato reflexo, como se assim o expulsasse mais rápido do carro. Por um momento, Andrei interrompe a contagem das notas e levanta a cabeça. Os dois se entreolham. Tem vontade de dizer ao oficial a mesma coisa que a mulher devastada do metrô lhe teria dito se ele tivesse lhe dado a chance de abrir a boca - e que por isso mesmo ele não pode saber o que é. Não diz nada."

in O filho da mãe

 

O amor maternal

Bernardo Carvalho narra, pela primeira vez, na terceira pessoa. "Sempre tive algum preconceito em usar o narrador na terceira pessoa. É mais fácil narrar em terceira pessoa do que em primeira. Em primeira pessoa há mais limitações.", afirmou o autor na apresentação da obra na Feira do Livro de Lisboa. A sessão decorreu com a participação de Osvaldo M. Silvestre, professor no Instituto de Língua e Literatura Portuguesas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

"Mais do que o amor gay que atravessa O filho da mãe, penso que é o amor maternal que marca este livro.", declarou o professor, salientando que "Bernardo Carvalho é um dos maiores escritores brasileiros do nosso tempo porque é um escritor pouco brasileiro"... "Há uma tremenda maturidade na escrita deste livro."

"Ruslan desce do ônibus, mas não consegue arredar o pé da calçada. Fica parado no ponto, ao lado dos passageiros que esperam os ônibus e os lotações que os conduzirão de volta para casa depois de um dia de lazer no centro. Teve de trabalhar durante o horário de almoço para conseguir sair mais cedo da obra. Olha o edifício do outro lado da avenida, enquanto os carros passam nos dois sentidos. A primeira vez foi mais fácil, não corria riscos, não o conheciam, podia passar por outra pessoa se ela não estivesse em casa, como de fato ocorreu. Mas, depois de ter sido visto pelo irmão menor, não quer dar motivos para que os outros desconfiem. Já não pode simplesmente bater à porta, como um operário que vem oferecer os seus serviços. E hoje é domingo. Vai ter que contar com a sorte. Precisa falar com ela fora de casa. Quando ela sair ou antes de entrar. Vai esperar que ela abra a porta do prédio. Terá pouco tempo para dizer tudo o que quer, sob o risco de encontrar o marido e os filhos. Os andaimes não o deixam saber se há gente no interior do apartamento. Ainda está olhando para cima, para a fachada do prédio, quarenta minutos depois, quando ela surge na calçada, do outro lado da avenida, vindo na direção da porta de ferro. Por pouco, ele não a perde. Atravessa a avenida, fazendo uma breve parada no meio, entre os carros que seguem nas duas mãos. Entra no prédio, atrás da mãe. Ela nota o barulho da porta às suas costas, antes de pegar o elevador, e se vira para trás, por gentileza, para aguardar quem ela supõe ser outro morador. É quando o vê, parado na porta. Nada no mundo o fará esquecer aquele olhar. Ela não tem palavras nem forças para fazê-lo compreender o que ele já devia ter entendido. Diz com os olhos. Não esperava revê-lo, muito menos na entrada do próprio prédio."

in O filho da mãe

O livro pode ser encontrado na Companhia das Letras.

 

 

Foto de Jorge Padeiro/Agência Zero

Entrevista à escritora brasileira Thalita Rebouças

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Thalita Rebouças é considerada a escritora que mais vende junto dos adolescentes brasileiros.

Que cena, amor! e Que cena, mãe! são os títulos que a Editorial Presença acolhe e divulga para os leitores portugueses. Do outro lado do Atlântico, 200 mil exemplares já saíram das prateleiras das livrarias.

A escritora vai estar pelo Parque Eduardo VII para distribuir autógrafos e não só: «Se não tiver o meu beijo, não é o meu autógrafo!»

Veja aqui a entrevista ao Jornal da Manhã da TVI 24.