Bernardo Carvalho é um dos maiores escritores brasileiros do nosso tempo porque é um escritor pouco brasileiro

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"Foi um livro que escrevi sem humor e sem ironia. Estava-me lixando para o que pudessem pensar. E isso foi muito bom."

O convite surgiu através do projecto Amores Expressos. 17 escritores foram enviados, durante um mês, para uma cidade. Bernardo Carvalho foi um deles e o destino foi São Petersburgo. O objectivo era escrever uma história de amor. Sem saber falar russo e sem conhecer ninguém, Bernardo Carvalho tentou estabelecer uma rotina para combater o sentimento de desamparo: acordava de manhã, ia escrever para um cibercafé, almoçava, visitava a cidade para se inspirar no romance e, no final da tarde,  ia até ao ginásio. Mas a rotina durou só três dias até ao momento em que foi assaltado entre o quilómetro que separava a casa do cibercafé: "O assalto que tive em São Petersburgo veio mesmo a calhar porque ajudou-me a criar as personagens do livro.", desabafou o autor.

O pânico durou o resto dos dias e foi nesse estado que viu a cidade e que criou a estória. No livro O filho da mãe, São Petersburgo é retratada como uma cidade brutal e preconceituosa onde as personagens se deslocam sem terem um espaço próprio.

"O oficial da reserva aponta para o capuz antes de Andrei descer do carro que pára, duas horas depois, no mesmo ponto de ônibus onde se encontraram. É menos um cuidado com o bem-estar do rapaz do que uma precaução para o próprio segurança do oficial. Não quer que vejam um recruta descendo do seu carro. Não tem mais vontade de tocá-lo. Procura a carteira no bolso interno do paletó e entrega o dinheiro ao rapaz. Antes de largar as notas, no entanto, retém a mão do recruta. E, se a retém, é menos por desejo do que para reforçar a hierarquia e a humilhação. Andrei sente os dedos calejados acariciando o dorso da mão que recebe as notas e se desvencilha, num gesto brusco. Abriu a porta do carro e a mantém entreaberta por alguns segundos antes de descer. Olha para fora, como se corresse o risco de ser pego em flagrante e as carícias daquele homem fossem a prova do seu próprio desejo por outros homens. Já não precisa se esforçar para não imaginar. Está destruído, como a mulher do metrô. Sente o cabelo espicaçado como o dela, embora o mantenha raspado faz quase um ano. Sente os olhos ardentes e os lábios borrados, costurados e esfolados. Veste o capuz. Tem pouco hábito com dólares. Conta o dinheiro antes de descer - ou finge contar; está nervoso, não distingue as notas, e a escuridão tampouco o ajuda. O oficial o observa, calado; hesita em pôr a mão na nuca do recruta e em acariciá-lo de novo, num ato reflexo, como se assim o expulsasse mais rápido do carro. Por um momento, Andrei interrompe a contagem das notas e levanta a cabeça. Os dois se entreolham. Tem vontade de dizer ao oficial a mesma coisa que a mulher devastada do metrô lhe teria dito se ele tivesse lhe dado a chance de abrir a boca - e que por isso mesmo ele não pode saber o que é. Não diz nada."

in O filho da mãe

 

O amor maternal

Bernardo Carvalho narra, pela primeira vez, na terceira pessoa. "Sempre tive algum preconceito em usar o narrador na terceira pessoa. É mais fácil narrar em terceira pessoa do que em primeira. Em primeira pessoa há mais limitações.", afirmou o autor na apresentação da obra na Feira do Livro de Lisboa. A sessão decorreu com a participação de Osvaldo M. Silvestre, professor no Instituto de Língua e Literatura Portuguesas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

"Mais do que o amor gay que atravessa O filho da mãe, penso que é o amor maternal que marca este livro.", declarou o professor, salientando que "Bernardo Carvalho é um dos maiores escritores brasileiros do nosso tempo porque é um escritor pouco brasileiro"... "Há uma tremenda maturidade na escrita deste livro."

"Ruslan desce do ônibus, mas não consegue arredar o pé da calçada. Fica parado no ponto, ao lado dos passageiros que esperam os ônibus e os lotações que os conduzirão de volta para casa depois de um dia de lazer no centro. Teve de trabalhar durante o horário de almoço para conseguir sair mais cedo da obra. Olha o edifício do outro lado da avenida, enquanto os carros passam nos dois sentidos. A primeira vez foi mais fácil, não corria riscos, não o conheciam, podia passar por outra pessoa se ela não estivesse em casa, como de fato ocorreu. Mas, depois de ter sido visto pelo irmão menor, não quer dar motivos para que os outros desconfiem. Já não pode simplesmente bater à porta, como um operário que vem oferecer os seus serviços. E hoje é domingo. Vai ter que contar com a sorte. Precisa falar com ela fora de casa. Quando ela sair ou antes de entrar. Vai esperar que ela abra a porta do prédio. Terá pouco tempo para dizer tudo o que quer, sob o risco de encontrar o marido e os filhos. Os andaimes não o deixam saber se há gente no interior do apartamento. Ainda está olhando para cima, para a fachada do prédio, quarenta minutos depois, quando ela surge na calçada, do outro lado da avenida, vindo na direção da porta de ferro. Por pouco, ele não a perde. Atravessa a avenida, fazendo uma breve parada no meio, entre os carros que seguem nas duas mãos. Entra no prédio, atrás da mãe. Ela nota o barulho da porta às suas costas, antes de pegar o elevador, e se vira para trás, por gentileza, para aguardar quem ela supõe ser outro morador. É quando o vê, parado na porta. Nada no mundo o fará esquecer aquele olhar. Ela não tem palavras nem forças para fazê-lo compreender o que ele já devia ter entendido. Diz com os olhos. Não esperava revê-lo, muito menos na entrada do próprio prédio."

in O filho da mãe

O livro pode ser encontrado na Companhia das Letras.

 

 

Foto de Jorge Padeiro/Agência Zero