Entrevista a Silviano Santiago: O perfil de Capitu

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«... condenai o ódio, a camaradagem e a indiferença - essas três chagas da crítica de hoje; ponde, em lugar deles, a sinceridade, a solicitude e justiça - é só assim que teremos uma grande literatura» (Machado de Assis, Diário do Rio de Janeiro, 8 de Outubro de 1865).

 

Machado de Assis é considerado o grande escritor da literatura brasileira. Se as primeiras obras são marcadamente românticas, após a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas o escritor brasileiro mergulha no realismo, mas traz à tona um estilo próprio revelador de uma linguagem original.
Dom Casmurro
é a obra-prima do romancista e a personagem Capitu continua a ser motivo de análise dado o seu carácter enigmático. O romancista, poeta e ensaísta brasileiro Silviano Santigao esteve na Feira do Livro de Lisboa para falar do perfil de Capitu. A descrição dos comportamentos femininos, a narração na primeira pessoa, o preconceito da crítica portuguesa em relação ao homo-erostismo, as semelhanças com O Primo Basílio e Madame Bovary e as várias análises que continuam a ser feitas à obra de Machado de Assis foram algumas das questões abordadas no debate promovido no Parque Eduardo VI.
No final, falámos com  Silviano Santiago para compreender melhor a obra de Assis.

Nesta conferência disse que uma das grandes originalidades de Machado de Assis era o facto de ele ter sido narrador na primeira pessoa. O que é que o fascina mais na narrativa de Machado de Assis?

Silviano Santiago - Neste caso particular, Dom Casmurro é uma narrativa em primeira pessoa. E é uma narrativa em primeira pessoa que deve ser contrastada com grandes romances do século XIX que apresentam semelhanças com esta obra. Esses dois romances do século XIX que me estou referindo são o francês Madame  Bovary e o português O Primo Basílio. Nestes dois romances nós sabemos que a mulher é adúltera porque a narrativa é uma narrativa em terceira pessoa. Além do mais, o romancista tece detalhes picantes da sexualidade das mulheres. O que é fascinante no romance de Machado de Assis, que vem à posteriori, é que é uma narrativa de primeira pessoa e, ao mesmo tempo, muito discreta em relação ao comportamento da mulher. Mas se é discreta em relação ao comportamento da mulher é, no entanto, maliciosíssima em relação à possibilidade de ela ser adúltera. A grande questão de Machado de Assis, e deste romance em particular, durante muitos anos, foi exactamente o enigma de Capitu.

Para além desse enigma também foi abordada a presença de um certo homo-erotismo em Dom Casmurro. Disse que a crítica literária portuguesa é um pouco conservadora nesse sentido. Pode-nos explicar melhor a resistência que notou por parte da crítica literária portuguesa, e não só, relativamente a esta abordagem?

Silviano Santiago - O problema é o seguinte...Isso foi uma pequena maldade. Você sabe que às vezes a gente faz pequenas maldades na vida. (Risos). A crítica europeia (não é só a portuguesa, é a europeia, em geral) tende a ser um tanto conservadora em relação aos grandes movimentos de comportamento que houve no mundo a partir de 1968: os movimentos de liberação da mulher, liberação da sexualidade e também não se deve esquecer as questões étnicas. Estas questões estão muito presentes naquilo que a gente chama Estudos Culturais. Os Estudos Culturais tratam, em particular, de determinadas obras que têm um teor nitidamente gay ou lésbico, ou escrita por minorias étnicas, ou com interesse pela mulher ou então que estão fazendo uma releitura de obras do passado que aparentemente nada tinham a ver com essas questões, mas  muito têm a ver. Porque estas questões não são questões novas, são questões que existiram desde sempre. Então, Machado de Assis, de certa maneira, quando é abordado pela actualíssima crítica norte-americana e brasileira, os críticos estão percebendo traços homo-eróticos bastante nítidos. Um dos exemplos que eu costumo dar é um conto chamado Causa Secreta. Inclusive existe um filme do Sérgio Bianchi que se chama A Causa Secreta. Sérgio Bianchi é um cineasta brasileiro bastante conhecido. Um pouco underground. É claro, teria que ser! (Risos). É um pouco undergound mas muito forte, e ele tem esse filme que é muito bonito. O conto é extraordinário e eu recomendaria a todos aqueles que tivessem interessados numa nova leitura de Machado de Assis. Machado de Assis, como pode imaginar, existe uma biblioteca sobre ele. Inclusive um dos melhores estudiosos de Machado de Assis é um português. O professor Abel Baptista tem já três livros sobre Machado de Assis e é um leitor extraordinário.

Durante a conferência referiu que para além Abel Baptista havia mais dois grandes estudiosos da obra de Machado de Assis.

Silviano Santiago - Um deles é um brasileiro, Roberto Schwartz, que tem feito uma análise marxista de Machado de Assis, portanto você vê também que ele [Machado de Assis] não entra nessas questões. E um segundo é um rapaz, um especialista de Liverpool, que tem feito novas traduções de Machado de Assis para inglês. As primeiras traduções de Machado de Assis, tanto para inglês como para francês, não são de bom nível. Agora é que se estão fazendo traduções de melhor nível, até porque são feitas por pessoas que conhecem profundamente não só o português de Machado de Assis (um português muito especial com toques à la portugaise, pois ele era casado com Carolina, uma portuguesa) e ao mesmo tempo neoclássico. Este estilo era difícil de ser passado para as línguas estrangeiras e Jonh Gledson , o professor de Liverpool, está a agora a traduzir Machado de Assis.

É possível enquadrar Machado de Assis numa corrente literária? Ou ele é muito eclético a esse nível e tem uma originalidade muito específica?

Silviano Santiago - É isso que é fascinante em Machado de Assis. Apesar de morar numa província (o Brasil naquela época era uma província, inclusive uma província escravocrata e ainda com uma literatura semelhante à literatura africana de agora, que é uma literatura muito preocupada com a identidade nacional, com os valores, com os heróis nacionais, etc.) é fascinante como Machado de Assis, no meio daquele ambiente de cedência escrava e tendo as maiores dificuldades para estudo, teve uma abertura extraordinária para uma visão cosmopolita de literatura que fugia ao ramorrão realismo/naturalismo. Isso é que é o mais fascinante. Ele fugia ao ramorrão do realismo/naturalismo buscando  inspiração no romance inglês do século XVIII. Em particular Laurence Stern, que é um dos grandes, e Shakespeare que também é outro grande autor que ele lia com grande constância. Ele opera uma espécie de deslocamento retórico que o torna extremamente original. Possivelmente só pode ser aproximado de Edgar Alan Poe. Os outros estavam interessados em fazer aquele ramorrão da escola literária em evidência naquele momento, que era, no caso, o realismo/naturalismo.

Que conselhos é que deixava para quem se quiser aventurar a ler a obra de Machado de Assis? Que livros aconselha em primeiro lugar?

Silviano Santiago - Eu acho que podem começar por um dos livros mais fascinantes dele que, não por coincidência, é o primeiro da sua fase madura: Memórias Póstumas de Brás Cubas. É a sua bíblia estética. Se analisarem com cuidado terão uma belíssima introdução a Machado de Assis. Em seguida Dom Casmurro (que é uma obra extraordinária), Quincas Borba e os contos. Detenham-se nos contos. Eu mencionei anteriormente Poe... Eu acho que no século XIX , no continente americano, existem dois grandes contistas: Machado de Assis e Edgar Allan Poe.

 

 

«A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar pago-te com um piparote, e adeus.» (Machado de Assis. Trecho do livro Memórias póstumas de Brás Cubas).


Foto de Jorge Padeiro/Agência Zero