O livro não morrerá II

Publicado em a

 

Carta de Carlos Pinto Coelho para o Lançamento da Revista "Os Meus Livros Especial Feira"

 

«Feira do Livro de Lisboa

30 Abril 2009

No meio da turbulência, pelo menos uma certeza existe: o livro não vai morrer. Não há naufrágio anunciado, por mais forte que seja o vendaval das tecnologias deste virar de séculos. O livro não morrerá, no sentido de que sempre haverá quem invente um texto destinado à fruição do outro - o ordene de forma metódica, justamente destinada a essa fruição, e depois o entregue a quem o faça circular.

A semana passada, na Feira do Livro de Londres - que não é, como esta de Lisboa, destinada aos consumidores mas existe apenas para os profissionais da edição e é, tradicionalmente, um barómetro de tendências e inovações - o mais importante editor independente do Reino Unido, Stephen Page, presidente da Faber & Faber, mostrava-se optimista quanto ao futuro e dizia que o sucesso dos editores continuaria a depender de duas coisas - e só delas: o bom gosto e o marketing.

Outra coisa é saber em que suportes se vai instalar o texto dos livros do futuro e que distribuição haverá entre autor/editor e destinatário leitor. Essa é a expectativa dos tempos, quer na edição, quer na distribuição, quer no comércio, quer na própria leitura. Vamos passar os olhos por isso.

Digitalização é o nome do novo jogo, que está a  mudar drasticamente todos os capítulos da produção e do consumo. Ou seja, é outra vez a tecnologia - outra vez, desde Gutemberg - a desarrumar conceitos estabelecidos e até ordenamentos mentais, conscientes e inconscientes, dos agentes da criação e da edição. Por outras palavras, regressa à luz do dia aquela lição de Ortega & Gasset na sua "Meditação Sobre a Técnica" quando afirmava que a ciência física - maravilha máxima da mente humana - tinha nascido da técnica. "Galileu jovem não está na universidade mas sim nos arsenais de Veneza, entre gruas e cabrestantes. Ali se forma a sua mente." E diz Gasset: "Grande lição! Convém que o intelectual maneje as coisas, que esteja próximo delas; das coisas materiais se é físico, das coisas humanas se é historiador. (...) O chamado espírito é uma potência demasiado etérea... É demasiado fácil pensar... A mente no seu voo quase não encontra resistência. Por isso é tão importante para o intelectual palpar os objectos materiais e aprender, no seu trato com eles, uma disciplina de contenção".

A digitalização veio encher de poeira, não só os actuais processos de fabrico do livro impresso, como a sua própria nascença ("eu escrevo digital, eu já não sei empunhar uma caneta sobre uma folha de papel branco" - confessou-me há dias um dos nossos melhores escritores). Além disso vai tornar obsoletos os meios de difusão. E não só a difusão dos textos agora concebidos, mas a de todos os textos do passado. De todos. Ponto.

De facto, a grande sensação ("revolução" como lhe chamava a semana passada o jornal britânico "Guardian") foi, na Feira do Livro de Londres, a apresentação pública da chamada "Espresso Book Machine", uma prodigiosa máquina que fabrica qualquer livro, em qualquer parte do mundo, ao ritmo alucinante de 100 páginas por minuto. (A revista "Time" considerou-a "a invenção do ano.") Ela recebe um livro digitalizado, via Internet, e depois formata as manchas de texto, coloca-as em páginas, acerta e corta o papel, guilhotina as capas, encaderna o volume e oferece-o, quentinho e pronto para consumo, em menos de cinco minutos. Já estão digitalizados e disponíveis para impressão mais de quinhentos mil títulos, e até ao fim do Verão haverá um milhão, o equivalente a 50 livrarias ou mais de vinte quilómetros de estantes com livros de médio formato. Dizem os cronistas que se trata da mudança mais radical do mundo livreiro desde a invenção da imprensa pelo senhor Gutenberg.

É fácil antever o que é que este "Multibanco" de livros vai provocar: o fim dos armazéns atulhados de velharias (quem quiser um alfarrábio manda-o imprimir na hora), o fim das roturas de "stocks", o fim das esperas pelo livro encomendado à Amazon ou à Fnac, o fim daquela edição esgotada há anos, o fim dos documentos inacessíveis, nos reservados das bibliotecas públicas ou privadas. Eis, de repente, todos os livros do mundo disponíveis para todos os leitores do mundo. Desde que devidamente digitalizados, o que terá de acontecer por força do mercado global. Entre os livreiros, a festa era grande: a partir de agora a paridade será completa entre  grandes e pequenos - haverá o ter ou não ter a máquina "Espresso Book" para atender os clientes. E assim a História do Livro ficará assinalada neste ano de 2009.

Outra coisa é, no entanto, o imponderável rumo que irão seguir os hábitos de leitura nesta era de império da imagem e do som. Outra coisa será adivinhar se este novíssimo recurso ao livro "à la minuta" poderá fazer estancar, ou não, a invasão da imagem e do som digitais nas prioridades do consumo e dos apetites das novas gerações. Já se lêem livros no Ipod e em visores macios e portáteis. Já se lêem livros no mesmo computador que me traz a televisão, a rádio, os vídeo-jogos e o YouTube. Serão esses os formatos do futuro e a morte do papel impresso?

Mas outro formato à beira de um colapso geracional é o das próprias cabeças. Ler é um esforço consentido - mas é um esforço, bem mais exigente do que o da captação de imagens em movimento. Ora a chegada às escolas dos computadores está a provocar uma deriva dos cérebros para novos mecanismos de captação de mensagens, mais rápidos e mais instintivos. À semelhança do ruído que as calculadoras de bolso causaram na aprendizagem da tabuada. Como reagirão, daqui a uma década, os jovens cérebros assim formatados, à secura de um texto de ficção ou de um poema, mesmo que estampados num visor electrónico? Como serão as estrofes dos Lusíadas convertidas em píxeis animados? Imaginam "O Canto e as Armas" recitado por um "robot" metalizado? E que vai fazer a actual classe docente perante este fulminante e imparável império da tecnologia? Vai, como reflectia Ortega & Gasset, dialogar com ela e reinventar outras claridades ou vai baixar os braços num "deixa andar" derrotado?

Não, os livros não morrerão. E hoje estão vivos e de boa saúde. Pela simples razão de que haverá sempre gente que os queira escrever, e gente que os queira ler e os encontre com cada vez mais facilidade. Mas de que objecto estaremos a falar, daqui a um par de anos, quando dissermos a palavra "livro"? Essa é outra questão - e, com absoluta sinceridade, acho que não importa absolutamente nada.»

Está aberto o debate, em formato digital, aqui.